O que querem dizer com isso? Município de Tefé

O que querem dizer com isso? Município de Tefé
Fonte: www.movimento.libertar.org

Município de Tefé - Relato da Marcha Contra a Corrupção – 15 de nov de 2011

Molhados, cansados, com vozes roucas, e “ainda vivos”... O que parece ser um relato de fim de guerra é apenas uma semente que fora plantada, por um grupo de estudantes no meio da floresta.

O Brasil e o mundo vêm se organizando e marchando contra a corrupção. Porém, como já dizia Eliza Lucinda: “o Brasil é corrupto desde o primeiro homem que veio de Portugal”, mas algumas pessoas estão empenhadas para encontrar a cura desse “câncer maligno”.

Acompanhando os noticiários e entendendo o mal que a corrupção faz para nossa sociedade, é claro que a Universidade do Estado do Amazonas – que tem como principal objetivo formar professores pesquisadores críticos – viria junto a luta. Certo? Errado. E não estamos aqui falando de marcha que foi fazia, estamos falando do processo.

Durante todo o processo de organização da Marcha, ouvimos alguns “CONSELHOS”: “não podemos fazer essa marcha agora, o prefeito está prestes a nos doar o terreno ao lado” - “Classe, vocês não podem ir a marcha, o prefeito é o principal patrocinador da UEA” - “Meninos, seria esse um bom momento para fazer uma Marcha contra a Corrupção? O prefeito pode entender mal” - “Para quê serve essa Marcha? O que você vão mudar com isso?” - “esses meminos estão falando muito, alguém tem que calar a boca deles. Se não, vamos perder os convênios com a prefeitura”.

Na primeira semana que colocamos uma faixa na frente da UEA, com simples escrita: “MARCHA CONTRA A CORRUPÇÃO... BREVE EM TEFÉ”, o presidente do diretório dos estudantes a arrancou (José Luiz). Lembrando que a mesma tinha autorização da direção. O presidente e outro que o acompanharam disseram: “arranquei a faixa porque vocês não são nada dentro da universidade” - “a diretora assinou autorização porque ela é muito ingênua” - “nós somos autoridade dentro da universidade”.

Contudo, o grupo de estudantes não desistiu. Debaixo de sol e usando os poucos recursos da sola dos sapatos e chinelos, caminharam por todas as escolas levando as notícias da marcha e do concurso de redação, que teve como tema: “CORRUPÇÃO”. Nessas escolas muitas perguntas surgiram dos professores e estudantes: “O que é corrupção?” - “quem é essa UNIÃO? - “ o que é recursos públicos?” - “ o que é apartidário?”

Uma semana antes da marcha, surge nos jornais e blogs, “DIÁRIO – D24AM – TEFE NEWS” - a seguinte matéria: “estudantes da UEA organizam marcha contra a administração do prefeito PAPI”. Nesse momento começa o “inferno!” Na primeira oportunidade a diretora do CEST-UEA, e alguns professores chama os estudantes para uma simpática conversa... “meninos o que vocês estão fazendo?” - “Quem é o líder de vocês?” - “vocês são anarquistas?” - “o que significa essa matéria?” - “veio alguns vereadores nos cobrar isso!” - “vocês foram ameaçados” - “ligaram ameaçando vocês” - “aqui é diferente de outras cidades, vocês tem que tomar cuidado” - “ qual a cor que vocês preferem para a lápide?”.

Muita coisas tinha que ser feito, era preciso procurar um advogado, abrir boletim de ocorrências e continuar a marcha. Foi nessa hora que conhecemos o “ESTADO BRASILEIRO”, representado pelas instituições públicas, que na delegacia apareceram frases como: “não adianta fazer esse boletim de ocorrência, a diretora do CEST vai negar tudo, e vocês vão ficar de mentiroso” - “se eu fosse vocês não colocaria o nome dela” - “o ar condicionado está molhando o computador e impressora, vamos tirá-los daqui” - “esperem ele não podem atender vocês” - “quem fala não faz e quem faz não fala” - encontramos a mesma resistência de ajuda foi no cartório com as seguintes frases: “não é eu que peço o advogado, sei que vocês são estudantes e não tem dinheiro, porém vão conseguir resolver na sala ao lado” - “ nunca fizemos isso, façam vocês mesmos” - “volta lá, eles tem que fazer isso para vocês” - “vou ver na outra sala, esperem e já resolveremos” - “já coloquei o traço no documento” - “já está pronto, éramos nós mesmos que tínhamos que fazer?” - “quem falou que precisava desse papel?” - “advogada, por favor, atenda os meninos”.

Depois de toda essa morosidade, mais uma vez a diretora e um grupo maior de professores, nos convidaram para outra simpática reunião dizendo: “é melhor vocês não falarem que os ameaçaram, para não comprometer a sua imagem” - “eu me resguardo no direito de não falar quem os ameaçou” - “quem falou que a ameaça era de morte, poderia ser de bater” - outro professor diz: “vai que ela diga e depois quem os ameaçou diga que é mentira” - diretora: “não dormi essa noite pensando em vocês” - vou fazer um ofício e manda para a polícia”.

Mesmo com tudo que era posto, os estudantes decidiram voltar às rádios e passar com o carro de som avisando toda a população. O coletivo já estava cansado, era muita coisas para fazer. Durante a passagem do carro de som, com os estudantes em cima falando sobre a marcha, muito foi visto: “depois da chuva, o sol brilhava forte” - “senhoras com a cara franzida, balançando a cabeça do lado direito para o esquerdo” - “famílias no alto da janela batendo palmas, e com sorrisos nos rostos” - “em uma obra, operários pararam de trabalhar e com as ferramentas nas mão fixaram os olhos no carro de som” - “por alguns metros crianças correram atrás do carro de som” - “motoqueiros e carros buzinavam incessantemente” - “em um caminhão de coleta de lixo, os garis erguiam e abaixavam o punho esquerdo, enxugando sua testa suada do trabalho árduo” - “nas lajes e calçadas as pessoas olhavam o carro de som e se conversavam”.

Naquela noite era preciso tomar muito cuidado, sangue poderia ser derramado. Ao contrário dos outros dias daquela semana, com nuvens carregadas e muita chuva. Era preciso preparar tudo para a Marcha, os estudantes acreditavam que antes das 09:00h da manhã o céu se “abriria”. Debaixo de chuva os estudantes fizeram tudo para garantir que a marcha continuasse. As 17:00h, começou a marcha: “um carro passa com uma pessoa olhando e levemente sorrindo, como se por dentro estivesse gritando” - “carro de som, nove estudantes com rostos colorido, uma criança, duas faixas, uma moto e três padres no meio da rua, em frente ao colégio Gilberto Mestrinho” - “o som começa a andar e mais pessoas começam a se juntar a marcha” - “17:20h a chuva não parava de derramar” - “ as pessoas mais uma vez iam para sua janelas” - “estudantes indignados fazem uso do microfone” - “repórteres pediam para os estudantes fazer pose” - “a marcha ganha novos adeptos” - “foguetes fazem estrondo no céu” - “não dá para contar, identificar, quantos, quem e como estão” - “as pessoas batem palmas continuamente fortes” - “nos bares do percurso os cliente param de beber” - “vigilantes de prédios públicos mostram-nos o polegar direito” - “na prefeitura por um minuto silêncio total” - “gritos geral” - “nenhuma pessoa ferida” - “nem um prédio depredado” - “todos saem e seguem o seu destino” - “tudo volta ao estado de antes”.

O que querem dizer com isso? O que querem dizer com TUDO isso?