HAITI – COMEM A CARNE E NÃO QUEREM ROER O OSSO

HAITI – COMEM A CARNE E NÃO QUEREM ROER O OSSO

*Maquiando o Haiti*

Até o terremoto, a mídia retocava cinicamente o retrato deste país, com
recursos encomendados pelos exércitos dos governos invasores, obedecendo a
recomendações dos *experts *políticos sob os auspícios da referida
comunidade internacional, que tem à testa os EUA, França e Canadá.
Encobrindo a realidade e se escondendo através de reportagens e
documentários visivelmente montados, os governos comprometidos com a
invasão, que já vai para o seu oitavo ano, inventaram um Haiti todo
fantasiado de paz e controle e, mais: feliz com a presença das tropas
“amigas”!

Mesmo sendo reproduzido o modelo adotado no Afeganistão e Iraque, não
estava claro para muitos o sentido da ocupação militar. A desgraça natural
fez aflorar as desgraças em nada naturais e ajudou a revelar a que veio
essa ocupação: proteger os interesses de toda sorte de imperialismo,
instalado numa região geopoliticamente bem localizada, que estabeleceu
zonas fabris baseadas em trabalho escravo, com isenção de taxas, retirando
lucros astronômicos em cima da miséria e da fome; impedir o direito de
organização, cortando literalmente a cabeça das direções e imputando-lhes
crimes fabricados para conter rebeliões e colaborar com a burguesia local,
que busca tomar as terras secularmente ocupadas pelos trabalhadores do
campo, para impedir a reforma agrária.

Ficou claro que o Haiti foi transformado em moeda de troca: exércitos e
polícias de governos submetidos às determinações dos EUA, orientados e
treinados para derrubar toda e qualquer tentativa de libertação no país,
por algum tipo de benesse. O Brasil aceitou o papel, posando de amigo e
primo rico, e entrou com patas, tanques e armas. Derrubando a soberania do
país, garantiu um bom lugar no ranking do sub-imperialismo. Não ajudou a
população em estado visível de desgraça, mas, serviu aos interesses do
Grande Império, cujo lema é “Ocupar, Assumir e Controlar”. Foi substancial
para o álibi dos EUA, na sua política de reforço da presença militar na
região, o apoio do Brasil. No entanto, apesar de fazer a lição de casa
direitinho, este não conseguiu, pelos serviços prestados, nem o
reconhecimento, nem o prêmio desejado: uma cadeira no Conselho de Segurança
da ONU.

*O Avesso do Controle*

Não obstante, o calor da desgraça dissolveu a cosmética que pretendia
construir a imagem de.um povo satisfeito e vestido para a festa da invasão
estrangeira. O tão decantado controle do comando brasileiro caiu por terra.
Com a presença de 14 mil marines mais tropas regulares do exército
estadunidense que controlaram todas as saída e entradas do país, ficou
claro quem realmente detinha o controle.**

O número de mortos e feridos até hoje não foram computados devidamente,
pois as estatísticas de qualquer natureza de um Estado falido são pouco ou
nada confiáveis, e, somadas ao levantamento fictício realizado pelos
governos das tropas invasoras, demonstram o desprezo pelo povo haitiano e o
apego a uma política de devastação, para justificar que a invasão se
prolongue indefinidamente.

Hoje, ainda que haja a promessa de retirada de 2.750 soldados, o quadro é
composto por 12.200, sendo 2.300 brasileiros, que continuam estuprando e
cometendo todo tipo de abusos e violações aos Direitos Humanos dos
haitianos. Assisti-se ao desespero de uma população. A maioria desabrigada
vive nas ruas, à mercê das intempéries, e uns poucos - os mais
“contemplados” - em barracas cedidas por entidades, doadas por organizações
internacionais. Foram erguidos, pelo exército estadunidense, acampamentos à
imagem e semelhança dos campos de concentração, em perímetros não urbanos,
onde os haitianos são obrigados a se cadastrarem para obter comida e lugar
para dormir – atentem: sem colchão! - obedecendo a toques de recolher, a
usar identificações, tipo pulseiras, e sujeitos, em seu próprio país, a
medidas mais condizentes a prisioneiros.

*Zero de Reconstrução *

No segundo aniversário do terremoto, a crise se aprofundou e segue à
devastação natural, a econômica e a social. O caos político virou lugar
comum e moeda corrente e escancarou o fracasso da Minustah. Que, apesar da
repressão com os conselhos do Bope - Batalhão de Operações Policiais
Especiais - e tudo mais, sequer conseguiu debelar as rebeliões dentro do
Haiti. Paripassu com o desemprego e repressão feroz, estão a criação de
novos negócios lucrativos para os fabricantes de armas, as empresas de
segurança e as grandes construtoras dos Estados Unidos e de seus aliados,
incluindo as Odebrechts da vida.

A reconstrução tão necessária não veio. O prometido montante de ajuda
humanitária – o 1% de US$ 4 bi destinado à ajuda humanitária (dos EUA), os
US$ 1.600 bi de assistência emergencial (várias países), os US$ 1.4 bi de
doação (de organizações para projetos) - se veio, não se sabe onde foi
aplicado. A situação em nada alterou para a massa famélica. E ninguém
presta contas. Não é de se admirar, pois quem governa de direito o país é
Michel Martelly, em aliança com Baby Doc e macoutes, mas quem governa de
fato é Bill Clinton, que maneja o dinheiro, à testa da Comissão Interina
para a Reconstrução do Haiti e como membro do Conselho Presidencial do
Haiti para o Crescimento Econômico – junto com empresáriod como O’Brien, da
telefonia digital. A política atual é a mesma: reconstruir o poder absoluto
dos EUA. Visam um mercado possível, dando espaço a financiamentos de
moradia àquela classe que ainda detém emprego e pode se endividar por
longos anos até que o bem adquirido seja quitado ou devolvido aos bancos.

*O Êxodo*

Não bastasse o quadro relatado, o vibrião do cólera, trazido por soldados
nepaleses, sob a bandeira da Minustah, grassa nos quatro cantos de um país
cujas estruturas estão aquém do imaginável. A fome campeia. A corrida pela
comida num primeiro momento gerou um inusitado êxodo: à diferença do tempo
dos Duvaliers, a população tomou a estrada da cidade para o campo, causando
um desequilíbrio letal. A magra colheita não tem condições de abraçar os
famintos dos centros urbanos. Fechando os olhos para o caos, o Estado
incentiva indiretamente o êxodo ao exterior. Para alívio dos EUA, a leva
migratória se dirige à América Latina, em especial ao Brasil – país do
futuro, celeiro do mundo.

São levas e levas de imigrantes clandestinos cobrando aqui o que lhes foi
prometido lá. Nada mais justo.

A diáspora haitiana elege senderos possíveis. Além da República Dominicana,
onde os haitianos vendem a força de trabalho ganhando um salário de fome
nos canaviais com o bônus do preconceito, dirigem-se à Argentina para
estudar ou trabalhar e a grande maioria não consegue um lugar nas
universidades e sequer emprego – também por conta do impedimento do idioma.
Os que migram para a Venezuela têm melhor sorte, pois o trabalho de
vendedor de sorvetes nas ruas, para as empresas locais, não exige senão o
manuseio do troco. Há os que buscam a Guiana Francesa, pelo conforto do
idioma, mas batem de frente com o preconceito do negro local.

Quando o destino é o Brasil, saem pela Venezuela, e, chegando a Santa Elena
de Uairen, entram em Roraima; ou saem pelo Panamá, alcançam o Equador, e
fazem a triste travessia pela Bolívia ou Peru, entrando em Brasiléia ou
Epitaciolândia ou Assis Brasil, no Acre, ou em Tabatinga, no Amazonas; há
os que vêm diretamente ao Rio de Janeiro ou São Paulo. Já há uma colônia na
Baixada Fluminense que abriga os “vitoriosos”. Na sua grande maioria
trabalham na construção civil. São Paulo é o caminho daqueles um tanto mais
qualificados, com experiência em eletricidade ou hidráulica, e dos mais
estudados que costumam dar aulas de Francês em empresas como a Wizard.
Estes têm mais status. Seus salários, obviamente, estão no patamar da
clandestinidade, sem direito aos benefícios decretados pelas leis
brasileiras.

A saga dos haitianos pauta uma diversidade de transporte. Os mais comuns
são o bote e a caminhada a pé e contratam ou não intermediários, dependendo
do destino elegido.

Pagam até US$ 4 mil a coiotes por uma jornada incerta e perigosa. Um
dinheiro, resultado de privações, que significa economias de toda uma vida,
mais o dinheiro arrecadado com a promessa de sucesso para, posteriormente,
trazer os seus financiadores. Na triste travessia há marcas indeléveis de
mortes e violências. Sabemos que as mulheres são estupradas e os que reagem
a esse estado de coisas são mortos. Os que logram chegar, assustados,
aglomeram-se em locais improvisados como albergues, esperando a decisão dos
poderes públicos.

*Comem a carne, mas não querem roer o osso*

De início, a entrada era silenciosa. Não causava tumulto e nem deixou às
claras o que se passava por trás dos bastidores da relação empregador
brasileiro e empregado haitiano. A exploração atingiu as raias do absurdo.
Face aos perigos inerentes à clandestinidade, nenhum haitiano podia
reclamar da remuneração bem abaixo do estipulado aos trabalhadores
brasileiros.

A partir de 2010 começou o êxodo em massa para o Brasil, impossível
esconder o número e a situação desses imigrantes. São de 1.500 a 3 mil
pessoas nas regiões do Norte do país e a cada mês entram mais. O governo
federal teve que se pronunciar. Sob pressão, seguiu a linha
assistencialista e criou o Visto Humanitário para regularizar a situação
dos haitianos. Até o presente, dos 4 mil que estão no Acre e no Amazonas,
apenas 1.600 têm a situação regularizada e vivem em guetos. Os demais foram
cadastrados e aguardam ou o visto ou a deportação.

O governo federal, representado pelo Ministro da Justiça, José Eduardo
Cardoso, já manifestou o seu “espírito solidário” implementando medidas de
restrição à entrada de haitianos e contando para isto com o apoio da ONU e
do Estado Haitiano. Além disto, já é papel do Brasil ser o mentor das
medidas a serem implementadas nos países vizinhos – Equador, Peru, Bolívia
e outros contemplados no roteiro dos imigrantes haitianos - para inibir e
erradicar a considerada invasão haitiana.

A onda migratória rumo ao Brasil será contida com base na Lei 6.815, de
1980, que decreta o visto de validade por cinco anos para os que vão
exercer atividade regular no país. E apenas 100 haitianos, por mês, poderão
entrar no Brasil. Os demais serão deportados, porque causam impacto no
mercado de trabalho brasileiro. Esqueceram-se de que os brasileiros
causaram mais do que impacto no território haitiano. Diante disto, os
haitianos continuarão praticando a “marronaj” (escondendo-se e negando
informações) e não entrarão com pedido de asilo, pois o “visto humanitário”
pode ser uma espécie de armadilha para detectar imigrantes non gratos.

Empresários brasileiros, “imbuídos de pena” e “querendo ajudar os pobres
haitianos”, estão oferecendo empregos em diversos Estados do Brasil, do
Oiapoque ao Chuí. Alguns até se mantendo dentro da legislação trabalhista.
Mas esmola demais, o santo desconfia. Foi, na verdade, instalada uma zona
de conforto. Dar emprego a um haitiano, neste momento, melhora a imagem do
empresariado, além da garantia que não haverá lutas ou reivindicações
trabalhistas. O Capital vê nisto uma grande oportunidade para arrefecer a
luta de classes numa conjuntura de crise, porque, neste contexto, o
haitiano “agradecido” pelo emprego “concedido” não se voltará jamais contra
o seu empregador. Quem sabe o empresariado aposta que o empregado haitiano
se tornará um excelente lacaio.

Lúcia Skromov