De pintor a mestre na UEA

De pintor a mestre na UEA

O professor de Física Francisco Otávio Miranda, 32, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), em Parintins (a 325 quilômetros de Manaus), é protagonista de uma bela história de vida cujo destino foi mudado radicalmente com a instalação da instituição de ensino superior naquele município.

Filho de agricultores da Costa do Itaboraí, na zona rural de Parintins, foi morar na sede do município para estudar ainda criança. Jovem, trabalhou como pintor na obra da sede da UEA, onde foi aprovado no vestibular para o curso de Licenciatura em Física e depois passou no concurso para professor da instituição.

Formado em 2006, fez mestrado na Universidade de Campinas (Unicamp), em São Paulo, e no próximo dia 3 de março, três dias depois que receber a titulação de mestre em Química, começará as aulas para o curso de doutorado naquela instituição de ensino para a mesma área de pesquisa.

Não dá para contar essa história sem perder o fôlego e para Otávio, como é mais conhecido, o relato tem o sabor e lembranças inesquecíveis, afinal é um relato de superação. “Se não tivesse a UEA em Parintins, eu provavelmente seria um agricultor hoje lá, como tantos”, diz ele, que começou a mudar o seu destino aos sete anos de idade quando se mudou para a sede do município com o objetivo de estudar e ainda jovem começar a trabalhar para se manter.

Um desses trabalhos foi na obra da sede da UEA, onde chegou a trabalhar como pintor, fato desconhecido por muitos que hoje o conhecem e o admiram como professor de Física, curso para o qual foi licenciado na UEA após quatro anos e meio de estudos. Após formado, fez o concurso para docente e, aprovado, foi realizar o sonho de dar aula.

MESTRADO

A decisão de fazer mestrado em Engenharia Química, área diferente da formação inicial foi resultado da dificuldade em trabalhar a Física aplicada no Amazonas, segundo ele. Sua linha de pesquisa é a “Caracterização Energética de Biomassas Vegetais”. Ele estuda alternativas para geração de energia a partir de biomassas de fibras, madeiras, ouriços de castanha e outros materiais orgânicos que podem se transformar em energia limpa.

Otávio rejeita qualquer distinção mais acentuada quando fala de sua origem. “Tenho vários colegas fazendo doutorado fora do Estado que são da UEA e são guerreiros como eu”, destaca ele, para quem o fato de ser do interior do Estado não o transforma em um ser diferente, mas em alguém que soube aproveitar as oportunidades.

Preparando-se para passar pelo menos mais quatro anos viajando a cada bimestre a São Paulo, como fez durante o mestrado, Otávio é só alegria.

Ele não esconde a “paixão” pela instituição de ensino criada para atender com a formação superior à população da capital e interior do Estado. Casado, pai de um bebê recém-nascido, o doutorando reconhece que a UEA deu a condição para o filho do “ribeirinho humilde” ter as mesmas condições que o “filho do doutor” para cursar uma faculdade. Por isso, promete retribuir o que recebeu não só como professor, mas também como cientista na cidade natal. Em São Paulo, guarda um certo orgulho de poder dizer-se amazonense entre os melhores mestres formados pela Unicamp e diz, brincando, que se der confiança a amazonense, “a gente vai embora e só o futuro dirá onde chegaremos”.

Por Ana Célia Ossame, publicado no jornal A Crítica, na página C5, do dia 12 de fevereiro de 2012.