Os transtornos provocados pelas barragens

A cada tópico, um “causo” diferente, como dizem os mais antigos. Assim é a fala do professor Roberto Naime, que busca na vasta experiência profissional pequenos exemplos para ilustrar suas explicações. Um profissional que não despreza a teoria, mas opta sempre pela praticidade. Na tarde de ontem, ele participou do IHU Ideias sobre os impactos socioambientais das hidrelétricas: uma visão local e nacional. Roberto Naime é professor no Programa de pós-graduação em Qualidade Ambiental na Feevale.

Nascido em Santa Maria, na Região Central do Estado, Naime começou contextualizando o conceito de bacia hidrográfica. Sistema ecológico com recursos interligados e interdependentes, as bacias passaram a ser guiadas por organizações hierarquizadas. “O plantador de arroz que tem dinheiro tira, tranquilamente, água do rio. Quem é pobre pode ficar com a canequinha vazia em casa”, afirmou o professor, filho de imigrantes libaneses.

Inundações e deslocamento de populações são os primeiros problemas que vêm a mente quando se pensa na construção de hidrelétricas. Porém, segundo Naime, há muitas outras complicações graves que não são citadas: perda da biodiversidade, alterações de fauna, doenças hídricas, perda de plantios perenes, modificação nas redes de relações, acidificação da água provocada pelo apodrecimento da madeira no fundo do rio e até pequenos terremotos ocasionados pelo peso dos reservatórios de água. “A preservação do patrimônio histórico e cultural é outra questão importante. Parte do município de Machadinho ficou debaixo d’água após a construção de uma barragem. Aparecia apenas o sino da Igreja.

A expectativa de Naime para o meio ambiente durante o Governo Dilma Rousseff não é nada otimista. Segundo ele, a questão ambiental tem pouca incidência na sua concepção desenvolvimentista.

Solução

Naime explicou que o rio tem três fases: juvenil (na parte alta, mais próxima ao leito), intermediária e senil. Grande parte dos problemas causados, segundo ele, seria minimizada se as barragens fossem construídas na parte juvenil, onde as inundações e o impacto ambiental são muito menores. Além disso, as barragens nesse ponto do rio têm vida ilimitada. “Basta abrir as comportas para despejar a argila, o que é impossível numa barragem grande.” E o custo é muito menor.

Segundo o professor, Barcelona, na Espanha, tem mais de 30 barragens, todas em áreas juvenis. Cada uma colabora com 3%. “As comportas são abertas uma vez por ano e, caso uma delas apresente algum problema, o transtorno é pequeno.”

Mortandade de peixes no Rio do Sinos

Assim que começou o evento, ao contextualizar o que são bacias hidrográficas, foi impossível Naime, consultor ambiental de diversas empresas, fugir do assunto: a nova mortandade de peixes no Rio do Sinos. “É como se estivéssemos em uma piscina com nossos filhos e despejássemos tinta e solvente na água”, afirmou. “Mas as pessoas não têm noção de que estamos no mesmo barco. Essa consciência não nasce de uma hora para outra.” O professor acredita que é necessário acabar com o “regime de carimbos” nos órgãos de fiscalização e criar um processo dinâmico. “A maioria das empresas tem excelentes mecanismos de tratamento de efluentes. Porém, como não há fiscalização sistêmica, abrem a torneira jogando qualquer coisa nos rios.”