A espetacularização da mídia no drama dos mineiros no Chile

Por Christina Lima

Quando o primeiro operário emergiu da mina em que estava preso com mais 32 colegas no deserto do Atacama, no Norte do Chile, dando um desfecho feliz a um drama que já durava 70 dias, cerca de 1.500 jornalistas internacionais esperavam ansiosamente pelo registro do momento que mobilizou a atenção de todo o mundo. Esse circo midiático alimentou de informações, durante vários dias, uma audiência global estimada em um bilhão de pessoas que acompanharam, em tempo real, o drama pela TV e pela internet.

Nessa, que foi uma das mais espetaculares operações de salvamento já documentadas, repórteres, políticos e até marcas representaram seus papeis diante das câmeras e tiveram seus desempenhos comentados pelas redes sociais: a expectativa e esperança dos internautas eram explicitadas e multiplicadas via Twitter e Facebook.

Um dos personagens mais citados em tweets e comentários foi Mario Sepúlveda, o segundo mineiro a ser resgatado. Ele saltou da cápsula Fenix bem disposto, entoou grito de guerra de torcida de futebol, beijou autoridades e ficou famoso (intencionalmente ou não) de forma instantânea. “Eu imploro para que a mídia não nos trate como artistas ou figuras do show business” declarou ao jornal Daily Telegraph. “Sou mineiro”, insistiu. Foi o que bastou para ser apelidado de ‘Super Mario’ e subir no Trending Topics.

A equipe de comunicação do governo chileno, com 45 integrantes e oito câmeras, capitalizou ao máximo o evento: teve acesso às áreas restritas para o resto dos meios de comunicação, obteve autorização do presidente Sebastián Piñera para transmitir ao vivo, criou rapidamente galerias de fotos no Flickr e impressionou nos quesitos agilidade e controle das informações ao dificultar imagens da deterioração física dos mineiros.

O brasileiro Rosental Calmon Alves, professor do Knight Center for Journalism in the America, da Universidade do Texas, resumiu em entrevista à BBC: “A maneira como o governo chileno conseguiu transformar o resgate dos mineiros em um espetáculo televisivo emocional vai se tornar um estudo de caso clássico”.

As marcas Apple e Oakley e a Nasa, agência espacial americana, também quiseram mordiscar a fama dos mineiros chilenos. A Oakley ofereceu os óculos escuros usados para evitar problemas causados pela sensibilidade à luz da superfície, enquanto a Apple distribuiu iPods para distraí-los fora do buraco. Já a Nasa foi a fornecedora do alimento líquido de alto teor calórico consumido pelos trabalhadores enquanto estavam presos a 700 metros de profundidade.

A ‘odisseia dos mineiros’ despertou interesse quase imediato de editoras e produtores de cinema interessados em transformar o episódio em livros e filme. O assédio de revistas com ofertas milionárias de entrevistas exclusivas tem interrompido a privacidade de sobreviventes, familiares e amigos. Um jogo eletrônico, especulações sobre a contratação do astro espanhol Javier Bardem como protagonista de uma produção hollywoodiana e até uma proposta de pôster completam o pacote da euforia midiática inspirada pelo resgate.

Com informações da ABC, BBC, Associated Press e Reuters.