O que jovens moradores de bairros da periferia pensam sobre o principal noticiário da Rede Globo?

Autor: Pedro Pontes de Paula Júnior

É com esse questionamento que a mestre em comunicação pela da Universidade Federal de Juiz de Fora, Aline Silva Correa Maia desenvolveu uma pesquisa junto a alunos do ensino médio de uma escola pública da periferia de Juiz de Fora, cidade do interior do Estado de Minas Gerais. A pesquisa foi desenvolvida no formato de estudo de recepção, analisando como o conteúdo do principal noticiário da Rede Globo, o Jornal Nacional age na construção da identidade da juventude suburbana e na percepção do que é entendido como realidade e valorização da cidadania.

Aline Silva partiu do pressuposto de que quem consome o conteúdo divulgado pela mídia assume um comportamento ativo, já que se estabelece sua própria significação e utiliza desse conteúdo para a sua formação cultural. Vale destacar que vivemos em uma sociedade onde o hábito de leitura é precário, sendo assim o telejornal ganha “status de local de orientação”, ao qual a sociedade recorre a fim de compreender o seu cotidiano e construir a sua identidade e cultura.

No passado a responsabilidade da formação dos indivíduos coube a família, a escola e a igreja. Atualmente cada vez mais essa tarefa também tem sido realizada pelos meios de comunicação, a autora explica que a mídia funciona muitas vezes como um mecanismo para suprir as carências afetivas da sociedade que muitas das vezes realiza por meio do consumo. Desde o inicio o modelo de TV adotado pelo Brasil é o de livre mercado, caracterizado pelo seu caráter comercial e lucrativo. Esse modelo contempla somente aquilo que é rentável, capaz de prender a atenção do telespectador e ao mesmo tempo exclui aquilo que não considerar estar dentro do pretendido pela emissora ou programa de TV. O Jornal Nacional detém o mais caro intervalo publicitário da televisão brasileira e conforme destacado no estudo é também líder de audiência em todo o país, por esses motivos Aline Silva escolheu este telejornal da emissora para avaliar sua recepção entre os jovens da periferia.

Os jovens escolhidos para pesquisa são alunos do ensino médio de um colégio público da periferia da cidade de Juiz de Fora. Aline Silva combinou duas estratégias para obtenção das informações necessárias para realização de sua analise, essas foram: a entrevista fechada e o grupo de discussão. Na primeira etapa participaram cerca de 300 alunos com idades entre 14 e 25 anos respondendo um questionário, onde foram inseridas questões para construção do perfil de cada aluno e outras para verificar: o que gostam de fazer no tempo livre e suas preferências em relação à televisão.

Em relação ao questionamento sobre o que os jovens gostam de fazer no tempo livre: 37,1% responderam conversar com amigos; 21,5% responderam namorar; 18% praticar esportes; outras questões como assistir TV, ouvir rádio, dormir, cantar, dançar, malhar e jogar vídeo game foram destacadas por 18% dos entrevistados; e apenas 5,3% declararão ler nas horas livres. Quanto a assistir televisão, 80% dos jovens responderam que assistem muito, revelando-se assim telespectadores assíduos. O questionário trazia também uma questão referente ao Jornal Nacional para saber se os jovens assistem o telejornal, dos entrevistados 68,2% disseram assistir ao telejornal da Rede Globo. Para além da média geral, na turma dos alunos do terceiro ano do ensino médio 90,9% declararam-se telespectadores do Jornal Nacional.

Tendo encerrado a primeira etapa da pesquisa, partiu-se para estratégia posterior, a discussão em grupo. Para essa etapa foi selecionada apenas uma turma, onde a maioria dos alunos tinha idade entre 16 e 17 anos. A discussão foi moderada pela própria pesquisadora que elaborou um roteiro de questionamento para favorecer a percepção de aspectos valorativo e normativo sobre o telejornal. A partir disso a autora destaca que percebeu que as representações sociais contidas nas notícias são materializadas para os jovens e ganha sentido devido às experiências de cada um.

Aline Silva destaca que os jovens assumem uma postura crítica em relação às notícias veiculadas no Jornal Nacional, considerando o telejornal como um importante meio de informação, mas com possíveis distorções de alguns fatos. Isso principalmente pelo fato de que ao retratar o jovem, o telejornal o faria de forma geral associando sempre a violência, seja sofrida ou cometida. A autora afirma ainda que o noticiário da Globo pouco estaria contribuindo para afirmação da cidadania dos moradores de periferia, já que a periferia sempre aparece na mídia de forma negativa. Nesse sentido a intenção do telejornal de se firmar como mídia cidadã é malsucedida. Conforme destacado nos depoimentos apresentados pela autora, o Jornal Nacional poderia fazer mais pela formação cidadã desses jovens, já que muitas vezes o telejornal é a principal fonte de informação dos jovens.

Por fim, Aline Silva concluir que de modo geral os jovens consideram importante assistir ao Jornal Nacional, sobretudo para se manterem informados, no entanto queixam-se do direcionamento excessivo a matérias de política e a linguagem utilizada pelos jornalistas. A autora afirma que: “Cheguei à conclusão de que o telejornal da Globo serve aos jovens entrevistados como uma janela, de onde eles vão olhar para o Brasil e para o mundo”. O que nos mostra que os jovens da periferia de Juiz de Fora assistem ao telejornal muito mais para saber sobre o Brasil e o mundo, mas pouco sobre si próprios.

No seu trabalho intitulado “Televisão, Telejornalismo e Juventude: o que jovens da periferia pensam sobre o Jornal Nacional?” Publicado na revista Estudos em Jornalismo e Mídia do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, Aline Silva surge à necessidade de inclusão de uma séria discussão sobre educação para a mídia no currículo escolar, dando como sugestão a criação de espaços de debate sobre a televisão, onde devem ser elucidados aspectos como estrutura, programação e os direitos e deveres do cidadão. A autora também entende que monitorar as mensagens jornalísticas sobre e para os jovens é contribuir para melhoria dos conteúdos veiculados, fazendo com que os profissionais de jornalismo melhorem os conteúdos que veiculam.