Sobre Rádio Livre

Na prática de rádio livre, nos deparamos com algumas perguntas, dentre as quais: por que somos uma rádio livre? Qual a diferença entre estas e as rádios comunitárias? Por que as rádios livres ficam sempre dentro de universidades e por que são alvo de um tipo específico de militância social, que caracteriza o paradigma de 1996-Seattle? Estas são algumas perguntas que tentaremos resolver neste texto.

As rádios livres precedem as rádios comunitárias, que, na verdade, não passam de uma conquista do movimento de rádios livres, um trunfo, conseguido em meados da década de 1970, período durante o qual explodiu o movimento no interior de São Paulo, em especial, na cidade de Sorocaba, quando inúmeras rádios tomaram conta da cidade e iniciaram aquilo que chamamos de revolução eletromagnética do dial, ou revolução molecular.

Já as rádios comunitárias são legalizadas, produto da conquista de um movimento de desobediência civil e estão contidas na lei 9612, que permite acesso altamente restrito aos usos de recurso de comunicação, como por exemplo: potência do transmissor, altura da antena etc., de modo que na maioria das vezes não se consegue transmitir nem para um bairro inteiro.

Por isso fazemos parte da rede ou do movimento de rádios livres, porque desejamos com toda a nossa força que haja um mundo onde caibam muitos mundos e é por isso que fizemos a história de boa parte de um século, quando foi possível tecnicamente se produzir mídia sozinho ou em grupo.

Assim, sendo nós (o nosso grupo ou o movimento) uma rádio livre, precisamos estar a par de nossos companheiros, precisamos nos inserir no movimento, da melhor forma que encontrarmos, para fazermos fluir a resistência, por debaixo da terra, não necessariamente como um rizoma, mas como uma rede ou um formigueiro, que, agindo nas bases (nas profundezas da terra), buscam desmoronar, através de pequenas ações, o terreno construído pelos grandes. Fazer rádio livre é sempre buscar inovar, atuar cada hora de uma maneira, sob diversos pontos de vista e sob diversas práticas sociais. Fazer rádio livre é o mesmo que se agregar, unir, juntar, mesmo que sob muitos aspectos e através de muita diferença.

Somos um todo sim, mas somos um todo fragmentado feito de particularidades que precisam ser analisadas com profundidade. Se somos ou não um movimento social? – é algo que talvez não caiba neste diálogo. Mas mais do que isso, somos um movimento no sentido daqueles que lutam por transformações sociais e mudanças. Na minha modesta opinião, não há pós-modernidade no sentido abrupto do termo, apenas uma continuação de projetos; afinal, a modernidade somente é enquanto projeto inacabado (só). Logo, somos um movimento social porque somos um movimento de movimentos sociais tradicionais do século XX (anarquismo, comunismo etc., e outros mais contemporaneizados, tais como hip hop ou punk) . Somos um caleidoscópio de cores, opiniões, posições políticas, identidades. Somos a representação prática do multiculturalismo, da tolerância e da honestidade para com a exploração da alienação das pessoas. Formamos opiniões, ganhamos gorgeta, produzimos festas, eventos, fazemos filmes, reportagens, sarais – enfim, tudo é possível.

Sobre o conteúdo deste movimento, é preciso dizer, de antemão, que não há um só paradigma em jogo, mas uma rede de ideais e princípios de luta e atuação que fazem deste movimento não só um movimento plural, mas multicultural, multifacetado. No entanto, ainda assim, há um paradigma que perdurou nos últimos anos como sendo o mais procurado em termos de base de atuação, que é o paradigma de Seattle, ou do movimento anti-capitalista.

No início, eram algumas pessoas envolvidas; hoje, trata-se de muitas pessoas, que muitas vezes nem sabem que o estão seguindo, pois já o absorveram de tal modo, que ele perdeu seu caráter novo e passou a ser quase que natural. Todo o movimento de rádios livres está estruturado por meio deste paradigma: descentralização, autonomia, autogestão, multiculturalismo, entre outros, que são a herança cultural desse período de protestos no mundo todo, inclusive no Brasil.

O movimento de rádios livres, enquanto
espaço de resistência à sociedade do espetáculo, entretanto, ainda estava
de pé e foi o esteio para muitos ativistas do chamado movimento anti-globalização.

Buscar deixar de lado as diferenças e combater o verdadeiro alvo: o capitalismo. Afinal, não podemos cair na repetição da história: não somos nossos próprios inimigos, somos aliados de uma luta que transcende as diferenças pessoais e/ou étnicas. Somos os verdadeiros combatentes de um tempo e de uma geração que, de um modo geral, cairá no esquecimento e na banalidade.

É preciso que haja união e articulação; que o cenário nacional e internacional estejam ao nosso favor e que o ideal de rádio livre permaneça sempre sendo uma alternativa aos laços cruéis do status quo. Sempre que há inovação e paixão pela prática, há transformação, mudança e história. Afinal, a resistência a esta sociedade espetacular não passa disso: fazer história para combatê-la dentro dela mesma. Este é o diferencial.
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Liberte-se!
Faça sua rádio você mesm@!

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