Xibé transmite protesto de professores e estudantes da UEA (relato de Thiago Santos destaca o caráter pedagógico da rádio livre)

Xibé transmite protesto de professores e estudantes da UEA (relato de Thiago Santos destaca o caráter pedagógico da rádio livre)
Professores e estudantes do CEST/UEA paralisaram as atividades regulares do Centro e realizaram um dia de debates e protesto em 10 de novembro de 2015. Foi a primeira vez que o protesto foi organizado tanto nas unidades do interior quanto na capital da UEA, usando-se para isso a comunicação através da rádio livre e das redes sociais. Segundo Thiago Santos, coordenador cultural do SINDUEA, o principal questionamento dos estudantes e professores de Tefé foi contra a paralisação das obras de ampliação do Centro. Entre os professores das várias unidades da UEA as reivindicações foram contra a precarização e sucateamento, a falta de material de consumo e expediente, os cortes nos investimentos, o não pagamento de bolsas a estudantes e a redução do salário real dos professores. A mobilização aconteceu em Tabatinga, Parintins, Itaquatiara, Tefé e Manaus. Além disso, a ação também foi parte de um dia de mobilização nacional da ANDES contra o corte de verbas para as universidades públicas.

A mobilização contou com duas assembleias com transmissão ao vivo pela rádio: uma de manhã e outra de tarde. De manhã a assembleia foi uma tribuna livre onde as pessoas relatavam livremente os problemas que estavam vivendo na universidade. De tarde a proposta foi fazer uma mesa redonda que provocasse a participação das pessoas em temas específicos: meio ambiente, gênero, participação política e movimento estudantil. Cada pessoa da mesa falou entre 10 a 15 minutos, e depois as pessoas eram provocadas a contribuir. Tanto de manhã como de tarde houve também professores e estudantes de Parintins e Manaus participando através do telefone, fazendo relatos sobre como estavam sendo os protestos nas outras unidades da UEA. A experiência deu tão certo que o sindicato pretende programar participações de todas as cidades mobilizadas e até contribuições de outras partes do país e do mundo nas próximas ações.

Em relato gravado em 13 de novembro, Thiago Santos, coordenador cultural do Sindicato dos Docentes da UEA, fez um relato sobre o caráter pedagógico da rádio livre e das assembleias nos protestos:

"Primeiramente eu gostaria de agradecer em público a participação da rádio Xibé. Eu avalio que é absolutamente importante a questão da comunicação nas nossas manifestações. Lá no dia 29 de maio nós tivemos uma outra paralisação em que também a Xibé esteve presente. Nós avaliamos como super positiva a contribuição da rádio em função de poder estender para a comunidade de Tefé o que acontece na universidade de forma mais abrangente, mas incisiva. A contribuição da Xibé, participando desses atos, é absolutamente fundamental por isso. É garantir um certo furo nesse bloqueio, na blindagem da comunicação, e que efetivamente as pessoas tenham contato com as coisas que acontecem na universidade sem atravessadores. Diretamente por aquelas pessoas que são agentes e pacientes de todas as coisas que estão acontecendo lá dentro. Poder ouvir, em Tefé, a voz das pessoas que fazem parte do CEST é muito mais rico do que ouvir a partir dos meios de comunicação uma leitura de segunda mão sobre as coisas que acontecem no Centro.

No momento em que as pessoas estão na assembleia e começam a manifestar as suas possibilidades, mas principalmente as dificuldades que enfrentam para realizar o seu trabalho, a comunidade pode ter uma impressão bastante melhor do que é a universidade, sem as pílulas douradas da grande imprensa, da reitoria, do governador, etc. A gente sabe que todos eles têm uma visão já bastante pronta, um pacote de comunicação pra efetivamente ludibriar a comunidade em relação ao que acontece na UEA. Quem os ouve, parece que está tudo bem em Tefé, como também nas outras unidades da UEA. É fundamental que a gente possa ter uma fonte alternativa de informação e que seja mais próxima do que realmente acontece no interior do Centro, então a Xibé efetivamente permite isso".

(...)

"No momento em que a rádio está instalada, está aberto um espaço para a intervenção voluntária da pessoas. Então ao menos por estar acompanhando uma assembleia com a rádio transmitindo, as pessoas têm a possibilidade de aprender a se comunicar. Porque tem algumas pessoas que têm maior facilidade e outras menos. Aquelas pessoas que, entre aspas, têm medo, receio, vergonha de falar em público, essas pessoas ao verem os seus colegas participando da assembleia e sabendo que está sendo transmitido, começam sentir mais incentivo para também participarem. Por quê? As pessoas vêm que falar no rádio não é algo para seres super dotados. Participar de uma assembleia não é para seres super dotados. É uma questão de um trabalho de acompanhamento, de preparo e etc. Então na medida em que as assembleias vão acontecendo, nós vamos percebendo que gradualmente os estudantes vão participando mais. É uma questão pedagógica. Vão se envolvendo, vão aprendendo a se comunicar. E é um ambiente absolutamente propício, porque é uma assembleia.

Na medida em que as pessoas vão se empoderando dessa forma, eu acredito que isso seja absolutamente importante. Por quê? Porque esse receio de manifestar a sua opinião, ele vai sendo reduzido. E partindo da assembleia, de estudantes, professores e técnicos da UEA, essas pessoas podem também se empoderar para participar em outros lugares. Essa é uma experiência que fica para as pessoas. Então no momento em que as pessoas tiverem outros espaços deliberativos, elas vão ter como subsídio aquela experiência: 'ah, eu já participei de uma assembleia que estava sendo transmitida para toda a cidade de Tefé e não tive vergonha de falar para 60 mil pessoas'. Essa é uma questão absolutamente importante. E junto com essa questão pedagógica da rádio que abre espaço, permite às pessoas se perceberem falando, nem que seja indiretamente pelos colegas que lhes representam... A gente percebe que muitas vezes alguém pede o microfone, e o colega do lado fala 'quero que tu diga isso, isso e aquilo'. A pessoa não fala, mas a pessoa pensa no que poderia ser falado. Isso já é absolutamente importante. Por quê? Por que a opinião das pessoas conta, é levada em consideração, tem importância.

E junto com isso, essa dimensão que eu acredito que seja pedagógica, tem a questão da autoestima, que é a valorização das pessoas. No momento em que a pessoa está na assembleia, participando e contribuindo, e num primeiro momento ela pensa que ela está se atrevendo a participar, e que depois ela percebe que 'não, é natural as pessoas pedirem a fala e se manifestarem, contribuírem com o trabalho do grupo', isso... à media que a pessoa a pessoa vai se inserindo mais e mais vai trabalhando a autoestima dela. Ela se percebe como parte do processo, e esse sentimento de pertencimento é fundamental quando a gente pensa que 'nós podemos construir um projeto coletivo de universidade'.

Até aquelas pessoas que no começo têm como manifestação, desse receio de falar em público, tremer as mãos, a voz embargada, se tem o papel segurando na mão, se percebe que o papel balança, a pessoa às vezes fala de maneira fluida, mas o pensamento dela é cheio de idas e vindas porque a pessoa está nervosa e começa a repetir o que já falou, enfim, à medida que a pessoa vai falando essas coisas ela vai se libertando desses medos. E à medida que ela precisa pensar o que ela vai falar, ela está se exercitando. Então esse envolvimento que a pessoa passa a ter no sentido de contribuir com os colegas, de ter essa exposição pública, esse exercício faz com que a pessoa se sinta valorizada. Essa dimensão é absolutamente fundamental. É 'como é que eu, indivíduo, que nunca participei ou participei pouco, ou nunca fui protagonista, posso me inserir num grupo'. E esse grupo às vezes é de 50, 60, 100 pessoas na assembleia, mas a pessoa sabe também que esse programa está sendo transmitido para o conjunto da cidade.

Então eu acredito que as pessoas vão começando a planejar, construir as suas considerações na rádio, e à medida que ela fazem isso elas estão se empoderando. Por quê? Estão trabalhando a questão da comunicação pública. Estão vindo a público comunicar ideias, propostas, e isso é absolutamente fundamental. Por quê? Porque as pessoas estão concatenando os seus raciocínios, pensando na forma com que elas vão se portar: se ela vai falar sentada, se ela vai falar de pé, se ela vai falar do lugar que ela está ou ela vai ser um pouco mais incisiva e vai lá pra frente, vai se expor por completo. Toda essa inserção do 'eu' nesse coletivo é absolutamente importante para que a pessoa se perceba no espaço. Se a mão dela está balançando, se a mão dela está parada, se ela está agitada, segue mexendo na pasta que está no colo, se ela mexe no celular, tudo isso, à medida que a pessoa vai se percebendo como participante desse processo de comunicação e começa a pensar como ela está se portando, nós estamos trabalhando a autoestima dela. E à medida que estamos trabalhando a autoestima, consequentemente a pessoa se percebe sujeito do processo. E esse 'se perceber sujeito do processo' é que vai construir a cidadania dela.

Porque em um primeiro momento o estudante tem problemas de financiamento com a bolsa. Mas ele não consegue publicizar isso. Ele pede que alguém fale: 'ah, fala professor aí que eu tenho quatro meses de bolsa atrasada'. Depois, num segundo momento, essa pessoa já começa a se sentir protagonista do processo e ela diz assim: 'a minha bolsa está atrasada a quatro meses!'. Entre ela pedir pra alguém falar e ela se sentir livre pra efetivamente expressar o que lhe atinge tem um salto quântico gigantesco. No momento em que a pessoa consegue efetivamente contribuir no grupo com o que ela pensa e o que ela sente, nós conseguimos contribuir com o amadurecimento dessa pessoa. Então a rádio efetivamente tem essa contribuição de que em um primeiro momento a pessoa está tolhida, está receosa, e em um segundo momento... Gradualmente, até chegar num momento de efetiva entrega pra coisa, as pessoas efetivamente conseguem falar. E esse conseguir falar para a comunidade inteira é absolutamente importante. Por quê? Porque a pessoa se sente parte desse processo maior que primeiro é a assembleia, depois é a universidade, e a universidade e a assembleia fazem parte desse todo maior que é veiculado e atingido através da rádio que é a cidade. Esses pontos são absolutamente fundamentais de se destacar."