Xibé indígena se apresenta no Seminário Nacional de Educação da Amazônia da UEA de Tefé

Xibé indígena se apresenta no Seminário Nacional de Educação da Amazônia da UEA de Tefé
Sílvio Bastos, Jonas Cruz e Guilherme Figueiredo apresentaram a palestra "A rádio Xibé e os povos indígenas" no I Seminário Nacional de Educação na Amazônia do CEST/UEA "Entre Rios e Memórias", realizado nos dias 30/11 e 1/12/16. A palestra foi parte da mesa "Educação no Amazonas: Mídias e Tecnologias", que aconteceu no dia 30/11/2015 com o professor Alcemir Teixeira como mediador, e tratou da atuação da rádio Xibé em terras indígenas e da participação indígena na rádio. O ticuna Sílvio Bastos fez um relato sobre a presença da rádio na Terra Indígena Barreira da Missão a partir de 2007, e mostrou imagens de festas, danças e rituais ticunas que têm sido fortalecidas com as transmissões pelo rádio. O miranha Jonas Cruz narrou suas experiências com a rádio Xibé, destacou a falta de espaço para as culturas indígenas nas rádios comerciais, e afirmou a importância da rádio livre para a educação ao valorizar a língua e demais aspectos da culturas indígenas e ribeirinhas.

Na mesma mesa o professor tefeense Kristian Queiroz apresentou o artigo "Ensino superior e instrumentos de teleação no Médio Solimões", que aborda a inserção limitada da região nas redes mundiais das tecnologias de informação e comunicação (TICs) e da educação superior. Leia a transcrição de uma de suas intervenções durante o debate na mesa:

"As TICs, antes de mais nada, são uma forma de expansão da técnica. Que técnica é essa? São justamete as técnicas inventadas nos grandes centros ocidentais, isso que Tim Wu chama de ursos polares. São cidades, são centros ligados às grandes corporações, megaindústrias que desenvolvem a técnica. Quando a gente tem uma lan house numa cidade no interior do Amazonas, onde só se pode chegar fluvialmente ou de forma aérea, nós temos uma expansão dessa forma de racionalidade, desse pensamento. Não dá para pensar em usar uma tecnologia ou uma técnica se eu não pensar igual a eles. (...) Só pode estudar quem tem dinheiro. Só pode estudar quem tem acesso a uma lan house ou a um computador em casa. Só pode estudar quem tem a linguagem da internet. (...) Se você ganha e produz em casa, se você cresce e melhora a sua vida, você melhora a vida de todos os que estão do seu lado. (...) De acordo com a ONU, o analfabeto é aquele que não sabe interpretar um texto. Daqui a um tempo, nós temos a perspectiva de que essa interpretação do texto não é ligado ao que... Como nossos colegas aqui o Jonas, o professor Guilherme e o Sílvio estão colocando, não é ligado mais ao texto em si mas à interpretação da realidade que a gente está vivendo (...) Vocês têm que estudar na UEA para se tornarem cidadãos, porque o cidadão produz dinheiro, produz capital. Quem produz capital produz relações e aí, a partir dessa linguagem-mundo, ele pode ser últil.

A nossa perspectiva é que a linguagem do mundo seja adaptada à linguagem local. Mas por que não a linguagem local ser adaptada à linguagem do mundo através das nossas culturas, nossas tradições, os nossos costumes? Aí é que está a beleza do mundo. Porque se o mundo fosse todo igual não iria ter graça. São as diferenças que fazem com que o mundo fique bem. (...) As TICs trazem isso a partir de elementos técnicos e comunicacionais para que a gente possa expandir nossas ideias, para que a gente possa avançar no mundo, e não ser invadido por eles. Essa seria a nossa grande adequação em relação ao combate do analfabetismo. Será que nós somos analfabetos? Será que o caboclo que come tracajá é analfabeto em relação à cultura que dura 500 anos? (...) As TICs, a globalização, os instrumentos de teleação trazem este suporte para nós, para que nós possamos criar uma identidade nossa, amazônida, uma identidade que nós possamos levar ao mundo via nossa linguagem: a linguagem ticuna, cambeba, via linguagem tefeense, via linguagem cabocla. É pra isso que a UEA está aqui. Para levar essa linguagem ao mundo através da arma que eles nos deram, no caso a tecnologia, a linguagem, a informação".