Projeto Minitransmissores faz seu último encontro no programa Club Five

Projeto Minitransmissores faz seu último encontro no programa Club Five
No dia 13 de dezembro aconteceu o décimo sexto encontro do Projeto Construção de Minitransmissores da Escola Estadual Nazira Litaiff Moriz, no Programa Club Five da rádio Alternativa. Além de acompanhar os bastidores do programa, alguns dos participantes do Minitransmissores deram entrevistas: Leomicy Nascimento fez um relato sobre o Minitransmissores; Guilherme Figueiredo contou como foi a ida de integrantes da Xibé no seminário da AMARC em Teresina e falou sobre rádio digital; Elton Marques foi entrevistado sobre a sua atuação na promoção do esporte; e Sérgio Fonseca e Luisa Maria conversaram sobre as oficinas de comunicação que a Voz da Ilha e o Club Five realizaram na comunidade Boa Vista da FLONA-Tefé.

O Minitransmissores foi concebido inicialmente para oferecer bolsas para 5 estudantes e uma professora da Escola Nazira, que iriam pesquisar sobre rádio livre e construção de minitransmissores com a ajuda da rádio Xibé e do Programa Laboratório de Comunicação Livre da UEA e depois fariam um minicurso para a comunidade escolar. Após a aprovação do projeto pelo edital do Programa Ciência na Escola (PCE) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM), na primeira reunião surgiu a ideia de abrir o grupo convidado mais professores, estudantes, e militantes de movimentos sociais interessados na luta das rádios livres para participar dos encontros e ações do grupo, e trazerem os seus próprios projetos e lutas. Neste site foi feito um convite aberto para um "Ajuri da Comunicação", que consistiu justamente em trazer mais gente para somar forças com o Minitransmissores, valorizando a escola pública como espaço para se unir ciência, educação e movimentos sociais na promoção da transformação estrutural da mídia, da ciência e da tecnologia.

O Governo do Estado acabou se mostrando absolutamente irresponsável, pois no final a FAPEAM acabou não liberando os recursos para a compra de peças e equipamentos necessários para a pesquisa e construção de minitransmissores de rádio FM previsto do projeto aprovado. Mesmo assim, o grupo realizou por conta própria inúmeras atividades. Leia abaixo alguns relatos dos participantes, que foram escritos para a elaboração de um artigo a ser publicado em breve no livro sobre educação que está sendo organizado pela Profa. Leni Rodrigues Coelho, coordenadora do Curso de Pedagogia do CEST/UEA.

"Durante sete meses foram realizados 16 encontros, 4 oficinas de rádio livre com a Xibé e a Voz da Ilha, 2 visitas a rádios profissionais de Tefé, e a participação em 4 palestras/debates no CEST-UEA, na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e no Seminário Convergências Midiáticas da Associação Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC). Em todos esses encontros e ações buscou-se o compartilhamento de experiências, pesquisas e a articulação de movimentos e de projetos de pesquisa e extensão envolvendo rádio, educação e lutas sociais. Para se alcançar a dialogicidade, promoveu-se o rompimento das barreiras colocadas pelas hierarquias modernas do conhecimento e das instituições educativas e científicas: todos deveriam ser considerados iguais, e a colaboração criativa fomentaria formas híbridas de ação e reflexão combinando ciência, educação e militância." (Guilherme Figueiredo, 12/03/2016)

"Até convido quem quiser participar, estar lá, que é uma coisa bem legal de participar porque a gente expõem nossas ideias, né? A gente está ali com professores de universidade como o professor Guilherme... a professora Leomicy, mas tem a questão: ali todo mundo é igual, todo mundo pode debater assuntos que de certo modo são importantes na comunidade. É uma coisa muito legal de você participar, de estar ali, você pode expor suas ideias porque ali é um tratamento de igual para igual. Não tem diferença entre você ser um professor ou ser um aluno. Não, ali todo mundo é totalmente igual. [Tem] alunos ali da UEA que estão participando junto com a gente, [o que é] uma coisa bem bacana. Isso me ajudou muito, porque me fez pensar nos problemas que a gente tem hoje. Porque não são poucos. E eu analisando agora, essas questões, depois que eu conheci o projeto isso me ajudou muito porque me fez refletir como pessoa, como ser humano em relação a isso tudo" (Emilly Amorim Souza sendo entrevistada por Franklin Pantoja, Programa Voz da Universidade, 8/8/15).

"No início começou com poucos integrantes, apenas os bolsistas da escola, alguns universitários e apenas isso, mas ficamos com a tarefa de convidar mais pessoas com nosso entusiasmo de que o projeto não seria apenas encontros. Seria mais que isso, a construção de ideias e o compartilhamento de experiências que iriam enriquecer e fortalecer mais o grupo. Com o tempo o número de integrantes foi crescendo, se tornou um grupo mais forte, cada um com ideias diferentes mas com o mesmo propósito de ajudar os bolsistas a terem ideias para seus projetos. Também nos proporcionou apresentações de integrantes que falaram de suas experiências com rádios, e o bacana é que além de conhecer as experiências dos alunos da escola mesmo, teve e tem a participação de universitários de diversos cursos como o curso de letras, pedagogia, física, turismo e etc.

Além dos encontros, tivemos uma visita na rádio Educação Rural de Tefé, onde o seu Thomas contou um pouco sobre a história da rádio. Esse pra mim foi o melhor encontro, deveríamos visitar e conhecer mais rádios. Alguns até participaram do programa Voz da Universidade. Foi muito bom ver como tudo acontece dentro daquele espaço que muitas vezes é pequeno mas cheio de ideias. Além dessa visita, teve também a ida na rádio do Marajaí. Não pude ir, mas ouvi a experiência de quem esteve lá, então esse encontro foi essencial para o grupo e para os bolsistas da escola. [...] Portanto, o projeto em si é repleto de experiências, ideias onde podemos nos expressar um com o outro, estar em comunicação com diversas pessoas diferentes. Para mim, de início foi um pouco assustador, mas o grupo me deixou à vontade. Não só eu, creio que todos ali se sentem assim. Mas preciso pesquisar mais para ter o que compartilhar com o grupo, até porque não conheço muito de rádio e por isso o projeto se torna interessante cada vez mais" (Ivânia Rodrigues Andrade, 3/10/2015).

"Os encontros têm colaborado muito na minha pesquisa e na minha vida. Não tinha participado de algo desse nível, onde posso ver e ouvir experiências de pessoas que tiveram participação direta ou indireta com o rádio e ainda tenho a oportunidade de expor as minhas ideias mediante o que está sendo discutido. Confesso que tem sido de grande significância. Até então ainda não estava realmente inteirada do assunto, sentia tudo muito superficial até me apaixonar por tudo que o rádio pode proporcionar na vida das pessoas quando utilizado de forma correta.

Nos primeiros encontros poucas pessoas estavam envolvidas. Até então éramos um total de 10 a 12 integrantes, sendo 2 professores, 5 estudantes bolsistas do projeto da profa. Leomicy e 7 acadêmicos orientandos do professor Guilherme. Então ele sugeriu que convidássemos mais pessoas que quisessem participar do projeto com o objetivo de somar conhecimentos e, a partir daí, trocarmos experiências. Então convidei alguns colegas da minha classe que também estão em fase de elaboração do TCC.

A partir daí os encontros estavam cheios de pessoas com diferentes trabalhos, e o bom de toda essa prática é que, além de compartilhar ideias, podemos elaborar e realizar oficinas que contemplam todos os participantes e seus projetos" (Vânia Pereira Batista Marques, 09/10/2015).

"Um encontro bem legal foi a visita que fizemos à Rádio Rural de Tefé, que nos permitiu conhecer a rádio, a estrutura física, a forma como funciona. Pudemos contar com uma breve entrevista do senhor Thomas que foi muito interessante, na qual contou um pouco da sua trajetória na rádio. Depois participamos do programa A Voz da Universidade, onde acadêmicos do curso de Licenciatura de Letras apresentam para a comunidade acadêmica e local informações sobre diversos assuntos, entrevistas e muito mais...

Noutro momento do projeto, a visita à comunidade indígena do Marajaí organizada por uma das participantes do projeto, a Darlene, também foi um dos encontros que proporcionou a todos os presentes boas experiências. A viagem foi um pouco cansativa entre Nogueira e Alvarães, e depois para a comunidade. Mas participar de uma oficina de rádio livre foi uma experiência divertida, porque eu não havia tido essa aproximação com a parte técnica que é a montagem e os ajustes para o funcionamento desse meio de comunicação. Fomos bem recebidos pelos comunitários e moradores da comunidade, e a oficina aconteceu com o intuito de fortalecer as práticas da Rádio Comunitária Boca de Ferro e motivar o trabalho coletivo entre os mesmos com compromisso social na comunidade onde estão inseridos. O Sérgio e o Jonas já estavam na comunidade quando chegamos. Eles fazem parte das rádios livres Voz da Ilha e Xibé, e já estavam bem adiantados na programação da comunidade do dia 7 de setembro. Não deixaram de colaborar com o evento, narrando as competições e as premiações.

Por fim, outro encontro que marcou muito foi quando o Club Five fez sua apresentação. As meninas que integram esse grupo são estudantes da Escola Gilberto Mestrinho, que por meio de projetos de comunicação obtiveram uma preparação bem produtiva para o trabalho no meio comunicativo. A partir desse processo surgiram grandes expectativas na criação do programa de radio.

Acredito que todos os que estavam presentes no dia da apresentação das meninas ficaram maravilhados com a trajetória do Club 5. Notei que práticas como essas estão se tornando mais evidentes no nosso cotidiano. O jovem começa a participar das ações educativas, refletindo sobre sua realidade e a comunidade em que está inserido" (Vânia Pereira Batista Marques, 09/10/2015).

"Com o passar do tempo convites foram feitos e o grupo foi aumentando, pois estávamos produzindo bons debates e as discussões ganhavam mais qualidade. Os debates abrangiam temas diversos como: segurança pública, saúde, cultura e sociedade, rádio livre, EDUCAÇÃO, dentre outros assuntos extremamente relevantes. Além disso, fomos privilegiados com algumas atividades muito ricas e importantes para a nossa formação enquanto sujeitos sociais. Visitamos e conhecemos um pouco da Rádio Rural de Tefé, nos foi apresentada a história da Rádio Xibé, também realizamos uma excursão à comunidade indígena do Marajaí, além de outros eventos. Todos os eventos mensurados foram excelentes e muito importantes para conhecermos sobre a história de nossa região, de como os meios de comunicação são influentes nas nossas vidas, além de termos a oportunidade de conhecer outras culturas e outros trabalhos sociais/educacionais.

Esses aspectos abordados evidenciam enormemente que trabalhos como o nosso projeto só contribuem para a educação/formação de um sujeito íntegro e comprometido com a comunidade em que vive. Podemos resgatar e valorizar a história local e como se deu o desenvolvimento da sociedade em tal contexto. Assim, educação é um ato formador do sujeito, de libertação pelo qual temos conhecimento de muitos valores que levamos para o decorrer de nossas vidas. A partir disso, passamos a abominar tudo aquilo que vai contra esses valores. Além do mais, o processo de construção de conhecimento está sempre em movimento, não sendo estático. O conhecimento de ontem não é o mesmo de hoje, e este não será igual amanhã. Portanto, as experiências que temos com o Projeto de Construção de Minitransmissores nos permitem nos educar, ampliar nosso conhecimento, nos libertar e vivenciar práticas que, de fato, são muito ricas e extremamente importantes para o decorrer de nossas vidas social e acadêmica" (Francisco Elton Pereira Batista Marques, 29/09/2015).

"Na intenção de participar da discussão de assuntos relacionados à comunicação, decidi participar de reuniões que acontecem na Escola Estadual Nazira Litaiff. Na primeira reunião percebi que as pessoas não eram realmente pessoas, eram pessoas com cascas e cheias de rachaduras pela luta intensa que enfrentam todos os dias. Elas procuravam uma maneira de se fazer presentes na sociedade e poderem limpar suas gavetas de possibilidades, apostar em algo novo. Conhecer cada um ali presente me dava uma visão sobre a trajetória individual e os caminhos seguidos ao longo dela. Pude me identificar com cada um de um jeito especial.

O que se discute é pautado pela experiência e a inexperiência, todos ali buscam contribuir de alguma forma, e eu sou um deles. Vejo um participante falar do seu trabalho de mototaxista, relatos de atividades de acadêmicos da universidade, a disponibilidade de alunos da escola em retomar o grêmio estudantil atualmente ausente, indígenas argumentando o interesse por desenvolver atividades de troca de conhecimentos como oficinas, e ainda pessoas que, com o tempo, estão aderindo ao grupo ou coletivo, adicionando sua participação e contribuindo para a uma melhoria social da juventude com seus propósitos, como o Club Five.

As relações humanas me dizem que existe o interesse na união para a construção de uma Tefé mais atuante, para fazer com que mude a realidade local de cada bairro da cidade. Me senti acolhido, pois é um interesse meu fazer parte dessa transformação, e há muito que participo de coletivos e eles sempre são assim: decidem por consenso e executam seguindo os princípios de respeitar o outro e protestar quando necessário.

Me enriquece bastante saber que há o interesse de construir transmissores para conseguir autonomia de transmissão e comunicação, em saber como funcionam as estruturas das quais as pessoas fazem parte. O debate do grupo me faz refletir sobre como a sociedade está se comportando e se modificando por conta da falta de comunicação social de teor comunitário. É notório como as relações ficam mais fortes quando se estabelecem eixos de conexão entre os grupos, acabando por formar uma rede de comunicação voluntária que está posta, e de maneira invisível. Poucos enxergam que esta é uma das formas de organização social mais efetivas para se conseguir algo.

O cansaço de estar estático na sociedade está causando comoção e articulação de grupos específicos e formando outros de atuação mais direta. Projetos de ensino e pesquisa convencionais, feitos com base em cobranças e não pelo desejo autêntico de cada estudante, estão sendo trocados por outros em que o que conta é o crescimento cognitivo e desmistificador de temas antes tidos como verdades absolutas e de difícil debate. Este grupo do Colégio Nazira surpreende as pessoas assim, unindo interesses de lutas por se conquistar, tendo em vista a realizações de objetivos de curto prazo.

Por fim, a produção de conteúdo com características individuais tem contribuído para a minha reflexão sobre as formas de comunicação: cada uma agindo de maneira diferente, alternativas singulares para solucionar ou entender os comportamentos e atitudes pessoais e coletivas, nessa sociedade tão cheia de dúvidas. Faço uma imersão em cada realidade e escrevo esboços que me fazem pensar, transcrever e ser sujeito em atividades colaborativas" (Sérgio Luiz de Sousa Fonseca, 22/10/2015).

"[A atividade do grupo acabou] mostrando uma nova forma de construção de pensamento, na qual ocorre uma desfragmentação do saber, permitindo assim a transformação do sujeito. A partir de experiências vividas envolvendo pesquisa e extensão, legitimam a produção do conhecimento científico de maneira interdisciplinar e independente das diferenças sociais, faixas etárias e credos religiosos [...].

Os encontros têm proporcionado para mim uma visão mais ampla do rádio como uma ferramenta colaboradora no desenvolvimento das habilidades comunicativas e educativas, que promove a integração social do sujeito e no qual acontece, direta ou indiretamente, um processo de transformação que nos torna autônomos. Nos faz geradores de ideias próprias e atuantes como agentes de veiculação, que contribuem para a disseminação do saber de forma dialógica e libertária, em busca de novas alternativas para uma sociedade mais justa, igualitária e compromissada" (Vânia Pereira Batista Marques, 09/10/2015).