Mais de 5 mil protestam nas ruas de Tefé

Nepotismo, demissões, descaso e desrepeito aos direitos cidadãos foram alguns dos motivos que levaram a população de Tefé, no Amazonas, para a rua. A Marcha Contra a Corrupção, organizada pelo Movimento Acorda Tefé, aconteceu na sexta feira, 6/12, e reuniu entre 5 e 6 mil pessoas que soltaram o grito de ordem: CHEGA!

A primeira manifestação do Movimento Acorda Tefé aconteceu em 25/6/2013 e reuniu 3 mil e 500 pessoas. O Acorda Tefé tem procurado se organizar através de reuniões em praças públicas, abertas e sem líderes. Além do protesto nas ruas, faz parte dos objetivos do Movimento realizar assembleias populares nos bairros da cidade e organizar o "Fórum Popular de Tefé", onde a população da cidade possa debater as políticas públicas e se preparar para exigir a sua participação direta na administração municipal.

Em 2011 e 2012 o movimento estudantil da cidade realizou duas Marchas Contra a Corrupção. Em 2011 militantes do Diretório Regional dos Estudantes foram ameaçados de morte por causa da mobilização. Em 2013 o Grupo de Jovens da Igreja Bom Jesus retomou a proposta, marcou para o dia 6/12 e logo o Movimento Acorda Tefé aderiu à Marcha.

Reportagem de Lígia Apel

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Entrevista de um dos organizadores à Rádio MEC da EBC

Editoriais antigos: Manifestantes refundam Fórum Popular de Tefé dia 11/7, com assembleia e nova manifestação | Tefé (AM) - 5 rádios realizam oficina de rádio livre no bairro Colônia Ventura | Saia do Facebook e vá à periferia - construa rádios e servidores livres | Dia 11 de novembro de 2011 - marcha contra a corrupção em Tefé

Aconteceu na tarde de sexta feira, 06/12, a Marcha Contra a Corrupção em Tefé (AM), promovida pelo Movimento Acorda Tefé, um fórum de cidadãos e cidadãs tefeenses em busca de moralidade no cenário político da cidade. Animados pelos movimentos nacionais, principalmente a juventude, o grupo se levantou, vem soltando a sua voz e conclamando o povo para reuniões, discussões, debates, palestras, enfim, vem compartilhando informações sobre as mazelas instaladas no município e região.

Dada a situação de descaso que o poder público, legislativo ou executivo, tem com a cidade, a Marcha Contra a Corrupção se caracterizou como uma gigante insatisfação, revolta e bravura de um povo forte, mas subjugado pela mão de ferro dos detentores do poder político e econômico da região.

Para uma cidade de mais de 65 mil habitantes, reunir marchando mais de 5 mil pessoas, e praticamente todos os moradores e trabalhadores que se postaram nas laterais das ruas e avenidas em apoio à marcha por todo o percurso, é possível dizer com convicção que Tefé vive um novo tempo, um tempo de exigência de cidadania.

Dentre os absurdos cometidos pela atual administração, o maior deles é a união de três secretarias estratégicas - finanças, planejamento e administração, e a nomeação da esposa do prefeito para estar a sua frente, num explícito crime de nepotismo.

Nos dois últimos meses, demissões em massa vem acontecendo. A prefeitura demitiu servidores da educação, obrigando os professores a irem para a cozinha preparar as merendas e as crianças a limpar as salas de aula. Na saúde, servidores, técnicos de enfermagem e médicos especialistas foram demitidos (não tem ginecologista na cidade). A prefeitura não se inscreveu para o Mais Médicos porque não quis dar a sua contrapartida nas contratações.

As demissões foram o estopim que fez a população cair em si e entender o que se passava: corrupção.

A juventude toma a frente e organiza a Marcha. Mulheres, crianças, homens, jovens, idosos, donas de casa, agricultores, servidores, professores, moto taxistas, comerciantes, pescadores, catraieiros, merendeiras, vendedores e tantos outros profissionais que compõe a identidade de Tefé, marcaram presença com suas palavras de ordem, faixas e cartazes denunciando e exigindo o que lhe é de direito : "Não à corrupção", "exigimos moralidade na política de Tefé", "o povo põe, o povo tira", "demissão é contra a constituição", "nepotismo é crime", " povo na rua, prefeito a culpa é sua", "saúde, educação, transporte, direitos!", essas e outras frases de efeito estampavam os cartazes e faixas que a população carregava, como num grito único: respeite-nos!

A juventude merece destaque na Marcha, que iniciou com um grupo de jovens do bairro Jerusalém e recebeu apoio do grupo de jovens do bairro Santo Antonio. Em um dos cruzamentos das ruas estreitas desse bairro de Tefé, um bloco de aproximadamente 200 pessoas une-se a grande caminhada que vinha ao seu encontro. Uma perfeita simbiose de insatisfações e revoltas. Esta articulação e mobilização é mérito da juventude, que se preparou, conversou e mobilizou os moradores do seu bairro. Uma demonstração de que a juventude está sim, articulada, politizada e sabedora dos seus direitos e deveres cidadãos.

Chegando em frente a prefeitura, os manifestantes encontraram a casa pública guarnecida com um grande e forte policiamento. A policia militar e o Batalhão Tático estavam de prontidão protegendo o patrimônio das pessoas que tiveram seu maior patrimônio vandalizado: seus direitos, seu trabalho, sua vida.

O ponto alto da Marcha foi a Tribuna Livre montada na praça Remanso do Boto. Ali, Raimundo Medeiros, um dos integrantes do Movimento Acorda Tefé e professor, falou em alto e bom som que "os vereadores são cidadãos, sim, mas eles tem casa, lugar e hora marcada para falar, é quinta e sexta feira. Hoje, aqui, quem vai falar é o povo de Tefé".

Organizados, num impressionante respeito a fala do outro, a vez do outro, as pessoas começam a soltar sua voz, suas ideias e opiniões carregadas de emoção.

A idosa Clementina de Souza cobra a promessa de campanha de construir a Casa do Idoso, mas "cadê a casa? não tem, não cumpriu a promessa".

A jovem Ana Carla, estudante e integrante de um grupo de jovens da igreja, diz que, ali, não representa a igreja, mas a cidadania da juventude. E cobra: "ele prometeu a Praça da Juventude, mas não deu pra gente. Aquele lugar que está há anos esperando, é só barro e desrespeito. Desrespeito a gente não merece, merece respeito e é isso que estou aqui exigindo".

Dona Irla Mendes, do bairro Abial, diz que não vai mais pedir respeito para o povo do Abial porque já estão cansados de pedir e não serem respeitados, "eu só vou dizer a este cidadão que o bairro continua na lama, não tem água, o Posto de Saúde fechou, e eu como técnica de saúde quero trabalhar dignamente". Dona Irla também é presidente da Liga Carnavalesca e pergunta: "cadê a cultura, gente? traz cantores de fora e paga um mundo de dinheiro, mas para os artistas da terra, é só promessa".

Um agricultor que não disse o nome, mas é morador da área rural chamada EMAD, diz que os moradores não tem condução para irem e virem: "além de caro, o ônibus é 'véio' e as estradas estão na lama nesta época da chuva, a ponte lá do 'Pisca' caiu e não foi colocada de novo", disse emocionado o agricultor da EMAD.

Outro jovem estudante, Hudson, pergunta 'ao senhor prefeito' sobre os cursos da Universidade Estadual do Amazonas e sobre o trabalho (1º emprego) prometido em entrevista no rádio.

A Tribuna seguiu com as pessoas fazendo suas reivindicações. Alguns mais exaltados, outros emocionados, outros mais tranquilos, todos falavam das promessas não cumpridas. O cenário que se vê e se sente com os depoimentos dos cidadãos e cidadãs é de completa ausência de políticas públicas que atendam dignamente as pessoas em seus direitos básicos.

As expectativas é de que a Marcha traga resultados, mas, "o movimento não pode parar", diz Raimundo. "Tivemos algumas conquistas antes mesmo da Marcha acontecer, mas não podemos ficar por aqui", disse.

As conquistas que Raimundo se refere que antecederam à Marcha são:

1. Os servidores receberão o 13º;

2. Foram suspensas as demissões que estavam marcadas para o dia 12/12. Mas, ainda é preciso ver para crer.

3. Num ato de coragem, a vice-prefeita, Icleia Pessoa Rego, decretou a exoneração da "primeira-dama-secretária de finanças, planejamento e administração". Apesar do prefeito no dia seguinte reverter o processo, readmitindo sua esposa para o cargo das três secretarias e demitindo toda a equipe da vice-prefeita, o Movimento vê a exoneração como conquista da sua organização.

A Marcha Contra a Corrupção organizada pelo Movimento Acorda Tefé chegou ao final com a certeza de que foi o início de uma luta que não vai parar. "Não ficaremos por aqui, vamos seguir em frente porque a nossa voz terá eco e muitos mais virão somar forças nessa guerra contra a corrupção e pela garantia dos direitos cidadãos aos tefeenses", afirma Raimundo, convidando a todos e todas para as reuniões do movimento que, de agora em diante, serão semanais e se realizarão nos bairros da cidade.

Em entrevista, na sexta feira (06) pela manhã, ao programa Rádio Sociedade da Rádio MEC, pertencente à Empresa Pública de Comunicação do Governo Federal (EBC), para a radialista Denise Viola, o professor Raimundo Medeiros esclarece os motivos da Marcha para a população do Rio de Janeiro:

http://radios.ebc.com.br/radio-sociedade/novidade/2013-12/populacao-se-une-contra-prefeitura-de-tefe-no-amazonas