Indígenas da Xibé abrem seminário da AMARC em Teresina

Indígenas da Xibé abrem seminário da AMARC em Teresina
O miranha Jonas Duarte Cruz e o ticuna Sílvio Almeida Bastos da rádio Xibé, de Tefé (AM), e a mãe de santo Beth de Oxum da rádio Amnésia, de Olinda (PE), abriram o I Seminário Regional Norte e Nordeste Convergências Midiáticas da Associação Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC-Brasil), realizado em Teresina nos dias 4 e 5 de dezembro de 2015. O tema do seminário foi "o futuro das rádios comunitárias em tempos digitais", e as rádios Xibé e Amnésia foram as responsáveis pela "key note" do evento, mostrando que os povos indígenas e afrobrasileiros estão se apropriando das tecnologias analógicas e digitais em sua luta por autonomia cultural. Além das falas iniciais, Jonas Duarte brindou a abertura com um ritual miranha, Sílvio trouxe canto ticuna e Beth de Oxum uma batucada de côco de umbigada, expressando que a diversidade de linguagens é outra aliada do direito à diferença. A diversidade de mídias e linguagens precisa ser levada em conta quando se fala em "convergência midiática".

Sílvio Bastos relatou a história da rádio Xibé, que surgiu em 2006 e que já em 2007 foi levada por ele e outros voluntários para a Terra Indígena Barreira da Missão para fortalecer o movimento da Associação Cultural dos Povos Indígenas do Médio Solimões e Afluentes (ACPIMSA). Ali a rádio passou a fazer oficinas de rádio livre e a transmissão de festas, danças, rituais e assembleias do movimento indígena. Sílvio descreveu algumas das atividades culturais que foram fortalecidas com a presença da rádio, e afirmou que "pra nós é importante que tenhamos a rádio Xibé nas comunidades, para podermos demonstrar toda a nossa realidade que acontece nas comunidades como esta festa, assim, que reúne todas as crianças, jovens que participam. Até a professora que trabalha na comunidade aproveita algumas oportunidades para divulgar todas as nossas realizações na comunidade. Então a convergência midiática é uma coisa muito importante para nós, porque já nesse desenvolvimento houve várias vezes em que uma apresentação cultural foi divulgada através da internet. Então tudo isso nós fazemos para engrandecer, demonstrar nossa cultura para todas as nossas populações do mundo".

Jonas Cruz contou sua experiência de empoderamento ao começar a participar do movimento de rádios livres em Tefé, e como passou a se envolver com o fortalecimento de várias lutas como o das mulheres da FLONA-Tefé, a do direito à cidade do Movimento Acorda Tefé e até o projeto A Nave Vai da AMARC-Brasil em parceria com outras entidades. Jonas destacou a importância da Xibé na luta contra todas as formas de racismo e preconceito. "Comecei a frequentar a rádio Xibé há um ano e meio atrás. Falam que o índio é incapaz de fazer qualquer coisa, o índio é só da selva. Mas eu superei. Eu fui à luta. Fui atrás de conquista. Comecei a conhecer novos amigos, comecei a participar da rádio livre, fiz um curso também na Igreja Bom Jesus em Tefé onde aprendi a construir um transmissor que não vai tão longe, mas já é um começo. Aqui também participei da rádio de lá, falando e divulgando sobre a rádio Xibé, uma rádio livre, falando como a rádio favorece não só pro índio, pro ribeirinho, mas também favorece as mulheres que no interior de lá são um pouco ignoradas. Mulher só tem que estar para lavar roupa, ficar na cozinha, e a gente quer trazer as mulheres para divulgar a sua voz e qual é a sua capacidade de futuro."

Beth de Oxum contou um pouco da história da rádio Amnésia, que nasceu em 2006, quando um grupo de ativistas percebeu que era possível a apropriação da tecnologia rádio e a formação de um coletivo de mídia livre que passou a atuar junto a terreiros, aldeias indígenas, etc. A rádio livre é parte de um movimento de resistência cultural e fortalecimento de tradições culturais que existem há séculos, mas sofrem com a negligência das políticas públicas e da universidade e a criminalização por parte do Estado brasileiro. "Rádio era essa coisa lá em cima, que tocava música, mas a gente não entendia essa perspectiva de se apropriar desse conhecimento. (...) Então com a atuação desse coletivo a gente começou a perceber que o rádio pode estar em nossas mãos. E em Pernambuco, não é diferente do Brasil, mas em Pernambuco tem algo muito doentio em nossa sociedade. A gente não tem uma rádio, nem a universitária, que toca a música de Pernambuco. A gente sabe que Pernambuco tem uma diversidade muito grande, tem uma riqueza cultural muito grande, mas não toca na rádio de Pernambuco o nosso côco. Eu venho de um terreiro, um terreiro de côco, de matriz africana, nação nagô. Mas também tem o brinquedo: lá em Pernambuco os brinquedos são muito importantes, eles mobilizam socialmente as comunidades. Os maracatus têm 200, 300 anos. Os côcos, mais de 100. O côco da umbigada na minha casa tem mais de 100 anos, foi dos bizavós da gente."