Brad Will, presente!

A onda de repressão violenta contra integrantes de movimentos sociais, estudantes, trabalhadores e trabalhadoras que se manifestam contra deteminações políticas autoritárias, vem crescendo assustadoramente desde junho, quando o MPL saiu às ruas e levou junto uma parcela da população disposta a apoiar a luta pelo transporte público e gratuito.

Em Belém, a gari Cleonice Moraes, de 54 anos, foi intoxicada por gás lacrimogêneo ao tentar fugir da confusão causada pela violenta repressão policial, e em Belo Horizonte, o estudante Douglas Oliveira morreu ao cair no vão que há no meio de um viaduto quando tentava pular de uma pista para outra para fugir da ação da cavalaria, que reprimia violentamente a manifestação. Mais recentemente, no Rio de Janeiro, o ''desaparecimento'' de Amarildo revelou publicamente o que nos bastidores já se sabia: a polícia ainda utiliza métodos repressivos estabelecidos durante a ditadura (o ''desaparecimento'' é uma estratégia de implantação do terror que foi muito utilizado durante as ditaduras latino-americanas: se não há vítimas também não há culpados nem delitos) para coibir atos populares.

Em momentos importantes como este, de revolta popular, se faz necessário trazer à memória outros levantes, revoltas, revoluções; nascidos da mesma indignação contra a injustiça e a exploração.

Há 7 anos, no dia 27 de outubro de 2006, um de nossos companheiros de luta foi assassinado por paramilitares do Estado Mexicano, em Oaxaca: Brad Roland Will era voluntário do Indymedia (Centro de Mídia Independente) e estava no México para cobrir as batalhas que os/as professoras/es oaxaquenhas/os tinham iniciado em maio para reivindicar aumento salarial. Fortalecidos/as posteriormente com a solidariedade dos/as indígenas, estudantes, trabalhadoras/es e campesinas/os que se uniram aos professores, foi criada a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO) com o objetivo de exigir um governo sem líderes, organizado pelas Assembléias Populares.

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Documentario - Brad mais uma noite nas barricadas

[Oaxaca] - Marcha pelo aniversario de morte do companheiro Brad Roland Will

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JUSTIÇA, MEMÓRIA E RESISTÊNCIA!

Brad Will, presente!

"La libertad es como la mañana. Hay quienes esperan dormidos a que llegue, pero hay quienes desvelan y caminan la noche para alcanzarla" Subcomandante Marcos.

Seis anos atrás, acompanhávamos cheias/os de esperanças o grito de rebeldia que ecoava desde o sul mexicano. De certa forma, todas/os nós nos sentíamos de alguma forma parte da revolta que tomava as ruas do estado de Oaxaca. No final de maio de 2006 as/os professoras/es oaxaquenhas/os iniciaram um processo de mobilização pelo aumento salarial, organizando marchas que contavam com mais de 70 mil pessoas. A resposta do então governador, Ulises Ruiz, foi muita repressão. Em solidariedade, indígenas, estudantes, trabaladoras/es e campesinas/os se juntaram a revolta formando a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO), que passou a exigir a saída imediata de Ruiz. Mas as coisas não pararam por aí! A APPO se organizou ainda mais e exigiu que Oaxaca fosse gerida pelo próprio povo através das assembleias populares. A cada dia, milhares de pessoas se juntavam a organização, cada um participando da forma que podia. Os meios de comunicação independentes e os canais criados pela própria APPO cumpriam um papel importante no meio do levante.

O governo de Ruiz, com a ajuda das tropas enviadas pelo presidente Vicente Fox e seus paramilitares, intensificaram a repressão, assassinando dezenas de pessoas que participavam das mobilizações. No dia 27 de Outubro de 2006, nós tomamos um grande soco no estomago, daqueles que nos impedem por muito tempo de respirar. Os paramilitares de Ruiz e Fox mataram covardemente Brad Will, nosso amigo, companheiro, lutador, documentarista e voluntário do Centro de Mídia Independe. Brad fazia parte da rede pelo Indymedia de Nova York, mas circulava pela América Latina documentado os levantes populares por onde passava. Quando esteve no Brasil, ajudou a produzir o documentário Sonho Real junto com o pessoal do CMI em Goiânia.

Até seus últimos suspiros, Brad se manteve com a câmera firme em uma de suas mãos e com o coração certo de que a luta pela justiça e pela dignidade valia a pena. A dor foi grande e foi difícil para cada voluntária/o do CMI recuperar o ar e respirar mais uma vez. O assassinato de Brad Will, como de outros lutadoras/es da APPO, segue impune. Brad entrou para a lista extensa de homens e mulheres que morreram lutando por um outro mundo, que morreram na mão de nossos inimigos.

Mas essa luta não será esquecida jamais por nós. Carregamos esse outro mundo em nossos corações, junto com a memória viva de resistência de nossas/os companheiras/os de luta.

Justiça ao companheiro Brad Will!

Sempre presente, sempre de pé!

Links:Filme "Brad: uma noite mais nas barricadas" (vimeo) | Brad Will: 5 anos de impunidade... e de memória | Entenda o que está acontecendo em Oaxaca (editorial de 2006) | Paramilitares pró-governo assassinam voluntário do Indymedia e ferem população civil de Oaxaca (editorial de 2006)

retirado de: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2012/10/513518.shtml

Brad Will, presente!